Em 14 de outubro a Aneel publicou a Nota Técnica Conjunta nº 7/2026 recomendando que a troca por medidores inteligentes só avance onde a distribuidora provar retorno econômico. São 60 a 70 milhões de medidores, R$ 400 a R$ 500 cada, R$ 25 a R$ 35 bilhões em jogo. Entenda por que a Absolar quer pressa e o que isso muda pra quem tem ou quer solar no Sul de SC.
Em 14 de outubro de 2026, a Aneel publicou a Nota Técnica Conjunta nº 7/2026-STD-STR com uma recomendação que parece burocracia e é uma das mais decisivas para quem tem energia solar no telhado: a substituição do medidor comum pelo medidor inteligente só deve avançar onde a distribuidora apresentar análise de custo-benefício positiva.
Traduzindo: modernizar a medição deixa de ser meta para virar projeto que precisa provar que se paga. A nota mantém a alternativa regulatória apelidada de A4', que tenta casar o avanço da medição inteligente com modicidade tarifária — ou seja, evitar que o consumidor pague na conta de luz por investimento que custa mais do que devolve.
/ Os números que explicam o freio
O tamanho da operação ajuda a entender a cautela. As estimativas de mercado citadas no processo falam em 60 a 70 milhões de medidores em 8 a 10 anos, a um custo unitário de R$ 400 a R$ 500. Só em equipamento, algo entre R$ 25 bilhões e R$ 35 bilhões — sem contar a infraestrutura de comunicação, software, cibersegurança, processamento de dados e a baixa dos medidores antigos, itens que a própria Aneel manda incluir na conta.
A discussão não é de ontem. A Consulta Pública nº 1/2026 teve primeira fase entre 29 de janeiro e 16 de março de 2026, com 55 participantes — distribuidoras, associações setoriais, empresas de tecnologia, comercializadoras e representantes de consumidores. A segunda fase correu de 1º de julho a 14 de agosto.
/ Dois lados, duas pressas diferentes
De um lado, as distribuidoras (via Abradee) pedem calma: risco de obsolescência do equipamento, investimento concentrado no início e pressão sobre a tarifa.
Do outro, Absolar, ABGD e Abrace defendem um ritmo mais rápido — justamente porque medição inteligente é pré-requisito para abrir o mercado livre de baixa tensão e para integrar de verdade a geração distribuída à rede.
Não é briga ideológica: é uma disputa sobre quem assume o custo de uma rede que vai ter muito mais solar, bateria e carro elétrico conectados do que tem hoje.
/ Já existe uma obrigação mínima rodando
Enquanto a regra definitiva não sai, uma exigência está valendo. A Portaria Normativa MME nº 126/2026 determinou que as distribuidoras instalem medidores inteligentes em 2% das unidades consumidoras por ano, durante dois anos, a partir de março de 2026. E as análises de custo-benefício devem chegar à Aneel até 29 de fevereiro de 2028.
Ou seja: a troca continua acontecendo, só em ritmo mais contido e com prova de retorno na mesa.
/ O que isso significa pro telhado em Criciúma, Araranguá ou Tubarão
Quatro leituras práticas:
1. Hoje, nada muda pra você. Quem já tem geração distribuída recebeu medidor bidirecional na conexão — ele mede o que você consome e o que injeta na rede. A compensação dos seus créditos segue exatamente igual. Nada nessa nota técnica altera a economia que seu sistema faz neste mês.
2. Medição inteligente é o que destrava tarifa por horário. Qualquer modelo em que a energia custe diferente ao longo do dia depende de medição horária. Sem medidor inteligente, não existe como cobrar — nem como remunerar — flexibilidade. Isso vale para tarifas horárias e para o cenário em que bateria em casa deixa de ser só autoconsumo e passa a ter valor de rede.
3. É aqui que mora o próximo salto da solar de telhado. O setor não está defendendo medidor por capricho. Com medição adequada, o dono do telhado pode virar fornecedor de serviço pra rede, e não apenas um consumidor que compensa crédito. Sem ela, essa porta fica fechada por mais uma década.
4. Conta digital entra no pacote. A proposta prevê fatura digital como padrão para quem tiver medidor inteligente instalado.
/ A conclusão desconfortável — e a boa notícia
A leitura honesta é que o relógio na sua parede pode demorar mais para ser trocado do que o discurso de modernização sugeria. A velocidade vai depender da conta de cada distribuidora, área por área.
Mas o que decide se instalar solar vale a pena hoje não é o medidor do futuro: é a tarifa de energia que você paga agora, o consumo do seu imóvel e as regras de compensação que estão em vigor. E essas regras, com o Fio B subindo degrau a degrau, favorecem quem entra antes.
Quem espera a rede ficar perfeita paga a conta cheia enquanto espera.