A Aneel manteve a bandeira verde em novembro, segundo mês seguido sem cobrança adicional. Só que em janeiro o Fio B sobe de 60% para 75% — e é esse número, não a bandeira, que decide o retorno do seu telhado no Sul de SC.
A Aneel anunciou no dia 30 de outubro que novembro fecha com bandeira verde: nenhum centavo extra na conta de luz. É o segundo mês seguido assim — antes de outubro, foram cinco meses de bandeira amarela, cobrando R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos. O motivo é simples e sazonal: as chuvas voltaram no Sul e no Sudeste, os reservatórios das hidrelétricas se estabilizaram e o sistema parou de precisar acionar termelétrica caro. No mesmo período de 2025, com a chuva atrasada, a bandeira era vermelha.
Boa notícia pra novembro? Sem dúvida. Base pra decidir se energia solar vale a pena? Nenhuma.
/ A bandeira é termômetro, não é preço
A bandeira tarifária não mexe na sua tarifa. Ela é um ajuste mensal que repassa o custo de gerar energia naquele mês — choveu, custa menos; secou, liga térmica e custa mais. Ela sobe e desce com o clima, e o histórico recente mostra o tamanho do balanço: vermelha no fim de 2025, cinco meses de amarela em 2026, verde agora.
Quem olha a conta de novembro e conclui "tá tranquilo, não preciso de solar" está lendo o indicador mais volátil da fatura e ignorando o que de fato sobe: a tarifa base — que já foi reajustada pela Celesc neste ano — e, para quem gera a própria energia, o Fio B.
/ O número que sobe em janeiro e não volta
A Lei 14.300 criou uma cobrança gradual do Fio B sobre a energia que você injeta na rede e compensa depois. Fio B é a parte da tarifa que paga a infraestrutura da distribuidora: poste, cabo, transformador. O cronograma da regra de transição é este:
- 2023: 15%
- 2024: 30%
- 2025: 45%
- 2026: 60%
- 2027: 75%
- 2028: 90%
- 2029 em diante: nova valoração a ser definida pela Aneel
Em janeiro de 2027, portanto, o pedaço cobrado dá um salto de 15 pontos: de 60% para 75%.
E aqui vai um alerta sobre uma confusão que circula bastante no mercado: o percentual não trava no ano em que você conecta o sistema. Quem está na regra de transição acompanha o calendário ano a ano, sem exceção. A única isenção de verdade é de quem protocolou o pedido de conexão até 6 de janeiro de 2023 — esses mantêm o Fio B isento até 2045. Se alguém te disser que basta fechar o contrato agora pra "congelar os 60% pra sempre", desconfie da simulação inteira.
/ Por que isso aumenta — e não diminui — o valor do telhado
Parece contraintuitivo, mas acompanhe o raciocínio. O Fio B incide sobre a energia que vai pra rede e volta como crédito. A energia que você consome no mesmo instante em que o painel está gerando não passa pela compensação — e, portanto, não paga Fio B nenhum.
Ou seja: quanto mais a cobrança sobe, mais importa dimensionar o sistema para o seu perfil de consumo, e não simplesmente jogar tudo na rede pra buscar à noite. Geladeira, ar-condicionado durante o dia, bomba, câmara fria, chuveiro no fim da tarde, máquina de lavar programada pro meio-dia — essas escolhas, que pareciam detalhe em 2022, hoje são o que separa um projeto bem calculado de um projeto que o degrau de janeiro vai apertar.
Projeto de energia solar em 2026 não é mais só "quantos painéis cabem no telhado". É quando você gasta, e quanto disso o sol cobre na hora.
/ O mercado não está esperando janeiro
Os números da Aneel para 2026 mostram pra onde o setor aponta: a geração distribuída deve somar 6,5 GW no ano e fechar em torno de 50 GW de potência instalada. A solar centralizada cresce 4,56 GW — 61,7% mais do que os 2,82 GW adicionados em 2025. Ninguém está instalando solar porque a bandeira ficou verde. Está instalando porque a estrutura da conta sobe, e a tarifa que você evita hoje é a mesma que você evita em 2030.
/ O que fazer, na prática, no Sul de SC
1. Esqueça a conta de novembro. Pegue os últimos 12 meses — é esse padrão que dimensiona um sistema, não o mês mais barato do ano.
2. Exija a simulação com o degrau de 2027 dentro da conta. Quem te apresenta payback usando só os 60% de 2026 está vendendo otimismo, não projeto.
3. Converse sobre horário de consumo, não só sobre kWh. É aí que o Fio B deixa de ser problema.
A bandeira verde é um alívio de um mês. A sua conta de luz é uma decisão de 25 anos.