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923 usinas solares devolveram a outorga em 2026 — e por que o telhado do Sul de SC joga outro jogo

14 de outubro de 2026por Lumie SolarBrasil, Sul de Santa Catarina

Levantamento da Absolar divulgado em 13 de outubro mostra 923 projetos solares devolvidos em 2026: 40,6 GW e R$ 134 bilhões que não vão sair do papel, com o curtailment de 25,3% como principal motivo. A micro e minigeração distribuída está fora dessas regras de corte. Veja as três leituras práticas pra quem tem ou quer solar no Sul de SC.

Em 13 de outubro de 2026, um levantamento da Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica) colocou número no que o setor já sentia no bolso: só neste ano, 923 projetos de usinas solares foram devolvidos no Brasil — 40,6 GW de capacidade que não vai sair do papel e R$ 134 bilhões que deixaram de ser investidos. Em 2025, as devoluções somaram 22 GW. O estoque de projetos outorgados caiu de 110 GW em janeiro de 2026 para cerca de 60 GW agora.

Parece notícia de outro planeta pra quem tem painel em casa em Criciúma, Araranguá ou Tubarão. Não é. Vale entender o motivo — e, principalmente, por que o telhado joga um jogo diferente.

/ O vilão tem nome: curtailment

Curtailment é o corte de geração. Quando sobra energia e a rede não consegue escoar, o ONS manda a usina parar de gerar — e ela deixa de faturar aquilo. Em 2026, o corte atingiu 25,3% da geração solar centralizada (1,4 GW médio). Uma em cada quatro unidades de energia que a usina poderia produzir simplesmente não virou receita.

Pior que o corte em si é a incerteza sobre ele. Os empreendedores citam a falta de clareza no ressarcimento da energia cortada, a dificuldade de prever o PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) e a insegurança regulatória como as razões para devolver a outorga. Como resumiu Eduardo Tobias, sócio-fundador da Watt Capital: "Uma vez claro o rateio, segue sendo necessário estimar qual é o volume do corte energético no futuro."

Em 6 de outubro, a Aneel aprovou a regra que organiza a ordem desses cortes e o rateio entre as fontes. É um avanço, mas chega com período de simulação ("shadow") antes de valer de verdade — ou seja, a conta de quem investe em usina grande só fica nítida mais pra frente.

/ Por que o telhado não entra nessa conta

A micro e minigeração distribuída (MMGD) — o sistema no telhado de casa, do comércio, do galpão, da propriedade rural — está fora da regulamentação de curtailment. Em junho de 2026, a diretora Agnes da Costa, relatora do processo de cortes na Aneel, votou por manter a MMGD fora dessas regras. Na prática, quando o ONS acionou plano emergencial de corte na rede de distribuição, a conta caiu nas usinas maiores, não nos painéis residenciais.

A razão é estrutural, não um favor regulatório: a energia do seu telhado é gerada e consumida ali mesmo. Ela não precisa de linha de transmissão disputada pra chegar ao consumidor — o consumidor é você. Usina centralizada depende de rede pra escoar a produção; telhado depende basicamente de sol e de um inversor funcionando.

Um ponto de honestidade: o tema não está congelado. A Consulta Pública 033/2026 da Aneel, com contribuições até 9 de novembro de 2026, discute dar às distribuidoras capacidade de observar e comandar a geração conectada na rede. A microgeração já instalada (até 75 kW) está expressamente de fora da proposta — são 4,31 milhões de unidades, 98,4% do parque. Mas o debate sobre o sistema descentralizado continua, e vale acompanhar.

/ O que isso muda pra quem está no Sul de SC

Três leituras práticas:

1. Menos usina nova não significa conta de luz mais barata. Pelo contrário. Projeto grande cancelado é oferta futura de energia barata que não chega. Com 40,6 GW fora do mapa e o estoque de outorgas quase pela metade, a pressão de baixa que essa expansão faria no custo da energia nos próximos anos fica mais fraca. Em Santa Catarina, onde as tarifas da Celesc já foram reajustadas em média 10,82% em agosto de 2026, isso importa.

2. Geração no telhado é o ativo mais previsível que sobrou. O investidor de usina grande não consegue cravar quanto vai faturar porque não sabe quanto vai ser cortado. Você, com um sistema dimensionado pro seu consumo, sabe exatamente o que está comprando: a substituição de um kWh que hoje você paga pra distribuidora. Essa conta não depende de PLD nem de fila de conexão.

3. O relógio do Fio B segue andando. A cobrança da TUSD Fio B sobre a energia injetada está em 60% em 2026 e sobe nos anos seguintes, pela Lei 14.300/2022. Quem instala hoje faz a conta com o percentual de hoje — e quem adia faz com um percentual maior.

A crise das usinas centralizadas é real e merece atenção do setor. Mas ela é, em grande parte, um problema de rede — de levar energia de onde se produz até onde se consome. No telhado, essa distância é zero. É por isso que, enquanto 923 projetos devolviam outorga, a geração distribuída brasileira seguiu crescendo e passou os 53 GW instalados.

Fontes: Absolar (levantamento divulgado em 13/10/2026), Aneel (regra de cortes aprovada em 06/10/2026 e Consulta Pública 033/2026), pv magazine Brasil.

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